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Num Passe de Mágica

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Num tempo que já se foi, mas ainda há de chegar, um habitante da Lua veio parar em um dos quatro cantos aqui da Terra, atrás de novas aventuras. Ele gosta de ser chamado de “Menino da Lua”, ou “Melu”, para encurtar. Desde que chegou, Melu tem causado confusões e até ajudado algumas pessoas com seus poderes mágicos. Sua personalidade gentil e amigável tem cativado os poucos humanos da Terra que não temeram suas asas e se aproximaram dele. Um desses humanos foi um mágico, que possuía uma beleza invejável e vestes finas. Era sempre simpático e carismático quando visitava a cidade, mas muito introvertido e taciturno quando se encontrava em privacidade. O mágico adorava fazer exibições de seus truques em feiras na cidade, o que cativava as pessoas, mas também o fazia temível. Todos queriam o mágico como amigo, ou melhor dizendo, como aliado, mas ninguém o queria próximo de si mesmo. Mães e pais proibiam seus filhos de se aproximarem do garoto. Isso por que seus truques de mágica...

O Par Perdido

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Eu perdi o par do meu sapato. Sabe quando você espera o ano todo por aquele momento de abrir os presentes do seu aniversário e quando esse momento chega... Você descobre que lhe deram aquele par de sapatos que eram do jeito como você queria? Aqueles sapatos que te atraíram desde que você os viu na vitrine e decidiu prová-los. Percebeu então que, além de atraentes, os sapatos também serviam no seu pé. Mais do que isso: eram do tamanho ideal e ainda por cima confortáveis de se usar. No começo você os usava para tudo: para ir à faculdade, para ir para a balada dançar, para fazer compras, assistir um filme no cinema... Até em casa você não conseguia tirá-los dos seus pés. Foi exatamente assim que tudo começou com o sapato que perdi. Mas então vieram as consequências de seu uso contínuo: os sapatos se desgastaram. A sola já estava roída, havia buracos onde eles não deveriam estar e até os nós firmes dos cadarços que sempre foram como braços que abraçavam os meus pés se afrouxaram...

Mistério

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Mesmo com o céu nublado e cinza, eu senti que deveria ir à praia. Chegando lá, senti-me um pouco atordoado com tamanha vastidão. Olhei fixamente para o horizonte e tentei achar o ponto de união entre o céu e o mar – pois me incomoda pensar que dois infinitos jamais se tocam. É preciso ter um ponto de convergência. É como o passado e o futuro, que se tocam sutilmente no presente. Ou como a vida e a morte, que possuem em comum o último suspiro. Caminhei à beira-mar coletando conchas e pensando no quanto tudo isso é finito. A vida é finita, a matéria é finita, as relações são finitas... Talvez até o tempo e o universo sejam finitos e nós só não saibamos disso ainda por que o fim de tudo está além da nossa compreensão. Somos apenas pequenos grãos de toda essa extensão de areia. Mas e se existisse algo além do fim? E se alguém fosse capaz de superar o fim do tempo, o fim da vida, o fim da própria matéria e do universo? E se nós fossemos como conchas que permanecem inteiras mesmo quan...

O Menino da Torre e o Menino da Lua

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                Em um lugar muito distante vivia um menino que gostava de ser chamado de Menino da Torre (isso por que ele vivia isolado em uma torre muito, muito alta, feita de pedras e ferro, com seu cavalo - e único companheiro). A torre ficava em uma clareira em meio a uma floresta densa e às margens de um rio cristalino. Este rapaz era fascinado pela lua e a encarava todas as noites através da única janela de sua torre. Por algumas vezes imaginava que poderia chegar até ela se crescesse só alguns centímetros mais, ou se seu cavalo fosse mágico – e ele realmente queria que isso fosse possível. Ele imaginava que estranhos mistérios a lua escondia. Imaginava também como seria sentir  o cheiro que ela tem, a textura do solo e como seria ver a Terra de lá.                 Devo, talvez, interromper a história para contar como o ...

Macieira

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No vai e vem do cotidiano a gente não para pra ver o que tem em volta, exceto quando o “em volta” para a gente. Assim como a maçã interrompeu Newton enquanto ele estudava tranquilamente embaixo de uma macieira, certo dia eu estava entre os vultos e corpos sem rostos de São Paulo quando vi uma Macieira dando frutos em meio ao concreto sólido e frio. Fazia tempo que eu não via uma maçã a não ser em um notebook ou smartphone, mas ali estava - bem em frente aos meus olhos - não apenas uma maçã, mas toda uma macieira frondosa e fértil esperando que alguém a notasse e usufruísse de seus frutos. Há quanto tempo esta árvore estava ali e ninguém a viu? Não importava para qual sentido você estava indo ou voltando, aquela estranha árvore parecia estar sempre na contramão, carregada de frutos vermelhos. Tão vermelhos que pareciam até vivos, como órgãos de um corpo em meio às máquinas. Minha fome e o encanto da árvore me levaram a pedir-lhe uma maçã. - Conte-me uma história e eu lhe darei ...

Orquídea

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Era uma vez uma jovem florista que cuidava de lindas flores em um pequeno jardim familiar. Ela era meiga e simpática (assim como suas flores) e tinha uma orquídea como sua favorita, seu xodó. A jovem e sua família não eram nobres, mas conseguiam viver com certa tranquilidade graças ao trabalho árduo dos pais e o pouco dinheiro que ela conseguia vendendo alguns arranjos de seu jardim. Ela também adorava estudar e ler todos os tipos de livros – os quais ela chamava de “companheiros de jornada”. A moça não era ingênua, mas tinha um coração muito bondoso e generoso. Era conhecida por todo o reino como uma alma caridosa e amiga – o que comumente atraía os olhares de seres mal-intencionados, com os quais ela conseguia lidar de forma pacífica e amigável. Coragem e dignidade eram qualidades que ela sem dúvida herdara de sua família. E todos os dias ela acordava feliz e cantando para a vida, cuidando de sua flor predileta com muito esmero e do seu jardim com muito amor. Mas um dia o rein...

Sede

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Era uma tarde quente de verão quando Ele e Ela conversavam. Ele possuía uma garrafa cheia de água fresca, fechada. Ambos conversavam como se tivessem se conhecido há anos, mas na verdade se conheciam há apenas algumas semanas. Todos os dias conversavam, ainda que sobre nada de relevante como o que estavam fazendo no momento, como tinha sido o dia de cada um, se iria ou não chover ou fazer calor... - Nossa! Incrível como a gente combina, né? – disse Ela, empolgada – Nunca imaginei que um dia encontraria alguém assim como você. Nós gostamos das mesmas coisas, pensamos de forma igual... Falamos tanto que até fiquei com sede! - Verdade, né? – respondeu Ele, também empolgado – Gosto de conversar com você. Os dois se entreolharam. Silêncio. Ela quebra o silêncio fitando o horizonte: - Tá calor hoje, né? E me parece que no calor ficamos duplamente cansados. Se bobear sinto sede o dia inteiro. - Tem razão. Por isso é importante a gente se manter sempre hidratado... – ele abre sua ...

O Lobo e A Flor

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Inspirado pelo que testemunhei e, na ausência de algum outro escrito que conte uma história exatamente igual a essa, decidi escrever este conto, tão real quanto me é possível dizer. Sei que não são poucas as histórias de lobos e flores por aí, mas essa é diferente. Tão diferente quanto seus protagonistas e seus detalhes. Certo dia um lobo perdeu-se de sua matilha. Ele não era um lobo comum. Era o mais fraco e o mais desajeitado. Sua forma de pensar não condizia com a forma como os lobos pensam. Seus hábitos eram diferentes dos outros e, por isso, ele sempre era esquecido ou menosprezado pelos seus companheiros. Sua vida limitava-se em tentar encaixar-se naquele grupo ao qual ele pertencia e correr atrás deles quando eles o deixavam para trás. Até que um dia, cansado, ele adormeceu à beira de um rio e, ao abrir os olhos, encontrou-se sozinho. Em seu íntimo, ele sempre soube que essa palavra o definia – sozinho - mas ele nunca quis acreditar; pois amava e confiava nos demais lobos (...